Rio

 


Quando o silêncio é resposta

Há gestos que nos tocam, olhares que nos despertam, e momentos que nos fazem acreditar que algo pode florescer. Mas nem sempre o outro responde. E nesse espaço entre o que sentimos e o que recebemos… aprendemos a escutar o silêncio. E a respeitá-lo.

Ontem, depois de um dia bonito, cheio de sorrisos, barcos, vento no rosto e conversas que aqueceram o coração, senti vontade de me despedir, de agradecer, de dizer algo mais. Mas não disse. E lembrei-me de outra vez em que também escrevi… e não obtive resposta.

Então, hoje, escolho outra forma de cuidar de mim. Ficar quieta. Esperar apenas pela vida, não por alguém. E nesse silêncio, encontro uma resposta inteira.

Durante a meditação, entre o silêncio e o leve adormecer, o corpo falou mais alto. Uma dor forte e repentina na anca esquerda. Uma fisgada atrás do joelho direito. Mensagens silenciosas, mas insistentes. Como se o corpo dissesse: “Olha para aqui. Aqui ainda há algo para libertar.”
E eu escutei. Sem medo.
Sei que estou a trabalhar as cinco feridas que me doeram tantas vezes — agora não para as esconder, mas para as curar com verdade.

Vieram também pensamentos… “Será ele? Será o que Deus já sonhou para mim?”
Mas a alma não respondeu com palavras. Respondeu com quietude. Com uma certeza mansa:
“Não é tempo de perguntar quem. É tempo de ser. E deixar acontecer.”

E no meio de tudo isto, outros sinais… como o R....i, com os olhos verdes como água, que resgatou um cão da morte com a mesma ternura com que falou comigo. Um homem bom. Não sei se veio para ficar ou só para lembrar-me que há bondade à minha volta. Mas sei que ontem, estive ali. Presente. Sem vergonha. Sem me sentir inadequada. Inteira.

Há momentos em que a alma sussurra para irmos, para dizermos, para tocarmos o outro com palavras. Mas há também momentos em que o silêncio é o nosso escudo sagrado. Já dei passos, já abri portas, já deixei flores onde só recebi vento. Agora fico quieta. Não por orgulho, mas por amor-próprio. Se alguém
sentir, que venha. Se quiser, que diga. Eu já aprendi a esperar sem me perder, a desejar sem implorar, a gostar sem me anular. E se o destino quiser, será. Mas hoje, escolho ficar. Comigo, inteira. Em paz.

Porque às vezes, quando o silêncio é resposta, é a vida a dizer: "Estás a aprender a amar-te primeiro."

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