Existe um tipo de solidão que não começa quando ele sai


 Há um tipo de solidão que não começa quando alguém parte.

Começa muito antes disso, de forma quase invisível, no dia em que uma mulher começa a deixar de se escolher sem perceber.

A vida continua por fora, tudo parece organizado. A casa, os filhos, o trabalho, as responsabilidades, até os sorrisos em contexto social. Mas por dentro começa a instalar-se um afastamento subtil de si própria. Não é um colapso evidente, é um desgaste silencioso. Um cansaço emocional que não se resolve com descanso.

E é aqui que muitas mulheres se enganam, porque chamam a isso falta de tempo, fase difícil, excesso de responsabilidades ou falta de amor. Mas, muitas vezes, o nome real é outro, autoabandono emocional.

Este processo não acontece de forma brusca. Acontece em pequenas decisões diárias. Em pequenas cedências que parecem inofensivas. Engolir o que se sente para evitar conflito. Adaptar a própria verdade para manter a paz. Colocar sempre o outro primeiro para não desestabilizar a relação. Ir-se diminuindo aos poucos, em nome de um amor que parece mais seguro quando é silencioso.

E assim nasce uma dinâmica que, no início, parece amor, mas com o tempo revela outra coisa. Uma mulher que segura com medo de perder. Um outro que se afasta para não se sentir preso. E entre estes dois movimentos cria-se um ciclo invisível, mas muito poderoso, onde ambos reagem ao medo e não à presença.

Quanto mais ela tenta manter, mais o amor parece escorregar. Porque o que é segurado com tensão deixa de respirar. E o que não respira, afasta-se.

É como tentar agarrar areia com as mãos fechadas. Quanto mais força fazes, mais rápido ela te escapa entre os dedos. E quando finalmente olhas para o chão, já não está ali tudo o que tentaste proteger.

Depois de um divórcio, muitas mulheres acreditam que esse ciclo terminou. Mas o que aconteceu, na maioria dos casos, não foi o fim do amor. Foi a consequência acumulada de anos de pequenos autoabandono emocionais que foram sendo normalizados. Não foi um momento. Foi um processo.

E quando a relação termina, surge uma pergunta silenciosa que dói mais do que a separação em si. Como é que eu vim parar aqui.

A resposta raramente é confortável. Não aconteceu de repente. Aconteceu aos poucos. E isso muda tudo, porque devolve a responsabilidade, não no sentido de culpa, mas no sentido de consciência.

Há um momento na vida em que a mulher é chamada a parar e a olhar para si de forma honesta. E nesse espaço interno aparece uma verdade que não pode ser ignorada. Não foi só o outro que não ficou. Foi também ela que se foi deixando para trás.

Não por fraqueza, mas por amor mal direcionado. Um amor que foi sendo dado sem direção interna, sem limites claros, sem presença própria.

E é aqui que começa o verdadeiro ponto de viragem. Não é sobre encontrar alguém novo. É sobre regressar a si. Recuperar o lugar interno onde começou o afastamento. Voltar a ocupar-se emocionalmente antes de voltar a ocupar-se de alguém.

Porque a maturidade emocional não é aprender a segurar relações. É aprender a não te abandonares dentro delas.

Uma relação saudável não nasce da necessidade de prender. Nem do medo de perder. Nasce da presença. Da escolha. Da liberdade interna de estar, sem desapareceres de ti.

Quando uma mulher já não precisa de se diminuir para caber, o amor deixa de ser um lugar de perda e passa a ser um lugar de expansão.

E talvez esta seja a verdade mais importante de todas. Não há amor verdadeiro onde existe autoabandono.

Se te reconheces neste padrão, não é um fim de caminho. É um ponto de consciência. E é exatamente a partir daí que começa a tua possibilidade de recomeço.

A sessão Recomeços com Direção existe para isso. Para te ajudar a sair do ciclo emocional repetitivo e a reconstruir a forma como te relacionas contigo e com o amor, com mais consciência, presença e direção.

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Margarida Baptista

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