Há seis meses tomei uma decisão que mudou tudo.
Colocar a casa à venda.
À primeira vista parece apenas uma decisão imobiliária. Mas quem já passou por um divórcio, uma separação ou um grande recomeço sabe que vender uma casa nunca é apenas vender paredes.
É fechar um ciclo.
É arrumar memórias.
É despedirmo-nos da mulher que fomos para dar espaço à mulher que estamos a aprender a ser.
Tenho 52 anos. Esta será a quarta casa da minha vida, mas a primeira que compro completamente sozinha.
E isso traz um significado muito especial.
Ao longo destes meses vivi momentos de entusiasmo, medo, dúvidas, atrasos, papéis intermináveis, negociações difíceis e situações que nunca imaginei enfrentar. O mercado mudou muito desde a última vez que comprei casa. Hoje, comprar uma casa sozinha em Portugal é um verdadeiro desafio.
Apesar disso, sinto uma enorme gratidão.
Sei que sou uma privilegiada. A venda da casa permitiu me ter uma entrada significativa para este novo apartamento. Mas também ouvi histórias de mulheres que, depois do divórcio, perderam praticamente tudo. Mulheres que ficaram sem possibilidade de comprar uma casa, obrigadas a viver num quarto com os filhos, depois de anos de trabalho e dedicação à família.
Essas histórias fizeram me perceber que nunca devemos comparar a nossa dor com a dos outros, mas também nunca devemos deixar de agradecer aquilo que conseguimos conquistar.
O apartamento que encontrei apareceu quando eu menos esperava.
Nesse dia visitei várias casas. Algumas tinham potencial, outras precisavam de obras profundas. Já estava cansada quando a mediadora me disse:
"Tenho mais um apartamento neste prédio. Quer vê-lo?"
Entrámos.
Ela abriu o estore.
A luz entrou de uma forma tão bonita que senti imediatamente uma paz difícil de explicar.
Antes de olhar para os detalhes, o meu coração já tinha respondido.
É este.
Há momentos em que a vida fala connosco em silêncio.
Nestes meses aprendi outra lição importante.
Pedir ajuda não é sinal de fraqueza.
É sinal de maturidade.
A minha mana esteve ao meu lado, mesmo quando dizia que não tinha ajudado muito. A verdade é que a sua presença valeu mais do que muitas horas de trabalho.
Uma colega acolheu o meu gato durante este período complicado.
A minha madrinha abriu me as portas da sua casa sempre que precisei.
Até o meu ex-marido, num momento particularmente difícil durante o processo da venda, colaborou para que tudo pudesse seguir em frente.
Às vezes esquecemo-nos de que a vida também se constrói através das pessoas que Deus coloca no nosso caminho.
Fazer mudanças também me ensinou outra coisa.
Não são apenas os móveis que precisam de organização.
Também o coração.
Aprendi a fazer caixas por prioridades, a identificar cada uma, a não querer abrir tudo no primeiro dia. Primeiro o essencial. Depois, pouco a pouco, cada objeto encontrará o seu lugar.
Talvez a vida também funcione assim.
Primeiro tratamos do essencial.
Respirar.
Dormir.
Comer.
Recuperar.
Só depois decoramos novamente a alma.
Hoje olho para estes seis meses e percebo que, muitas vezes, quis controlar aquilo que não dependia de mim.
Queria datas.
Queria certezas.
Queria respostas.
Mas a vida ensinou me que existem processos que só se revelam quando estamos preparados para os viver.
Confiar não significa que tudo será fácil.
Significa acreditar que, mesmo quando não vemos o caminho completo, o próximo passo já está preparado.
Se estás a viver um recomeço, talvez precises de ouvir isto:
Não tenhas vergonha de pedir ajuda.
Não tenhas medo de começar mais pequeno.
Não te compares com ninguém.
E nunca duvides de que a tua vida pode voltar a florescer.
Porque, muitas vezes, aquilo que parece o fim de uma história é apenas o lugar onde Deus começa a escrever um capítulo ainda mais bonito.
by Margarida Baptista
criadora Método GPS - RD e sessão Recomeços com Direção
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