Às Escondidas em Nome do Medo

 


A Porta do Medo: A Chave do Reencontro

Há portas na vida que parecem guardar segredos antigos, emoções que se acumulam como poeira em madeira densa, pesada. A minha, de madeira castanha e maciça, não era apenas uma porta. Era um portal para as minhas fraquezas, as minhas feridas e os meus medos mais profundos. Durante anos, mantive-a entreaberta, espreitando para dentro, mas sem coragem de a fechar ou atravessá-la. Até ontem.

Ontem, ao rodar a chave com firmeza, senti o peso não apenas da madeira, mas do que ela simbolizava: o medo de ser rejeitada, de não ser suficiente, de não saber amar ou ser amada. Era um peso que eu carregava como se fosse parte de mim, mas que, ao mesmo tempo, nunca quis enfrentar de verdade. 

O medo de ter medo tornou-se o meu maior carcereiro, e cada hesitação era mais uma volta nessa chave que insistia em manter a porta aberta.

A rejeição sempre foi o fantasma à espreita, lembrando-me de todas as vezes em que dei e cada hesitação era mais uma volta na fechadura, trancando-me ainda mais no ciclo de dúvidas e inseguranças.

Mas ontem, algo mudou. Ao fechar aquela porta, percebi que não era apenas uma ação física, mas uma decisão espiritual. 

Não era sobre afastar o outro, mas sobre proteger-me de continuar a mentir para mim mesma. A chave rodou lentamente, como se hesitasse em cumprir o seu papel, mas quando ouvi o clique final, senti algo soltar-se dentro de mim. 

Era o peso da culpa, o eco das rejeições, o vazio de quem procura o amor fora de si antes de o encontrar dentro.

O medo de não ser capaz... de não ser digna... revelou-se apenas isso: um medo. E os medos, embora pareçam paredes intransponíveis, são apenas sombras projetadas pela luz da nossa própria força. 

A porta que fechei não era uma despedida de alguém ou algo exterior. Era uma despedida da velha versão de mim que aceitava migalhas, que confundia atenção com amor, e que insistia em procurar fora aquilo que só poderia florescer dentro.

Agora, ao fechar essa porta, abri um novo caminho. Uma estrada onde eu escolho ouvir a minha essência em vez do meu ego. 

Onde eu me comprometo a ser fiel a mim mesma, a nutrir a minha alma, a cuidar da minha filha e a construir uma vida rica de propósito e paz.

As portas não são apenas para trancar o que dói; são também para preservar o que é precioso. 

Ao fechá-la, não estou a bloquear o mundo, mas a criar espaço para um amor verdadeiro — começando com o amor por começando com o amor por mim mesma. 

E quando o amor verdadeiro tiver que chegar, ele não precisará forçar a entrada; será recebido de braços abertos por uma alma inteira, pronta e em paz.


Margarida, e as suas palavras da alma

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