O Ano das Muitas Mortes

 


O Ano das Muitas Mortes e o Renascimento

Há um animal fascinante na natureza que, diante do perigo, finge estar morto. Um mecanismo de defesa, uma pausa estratégica para sobreviver. Assim também fui eu, por tantos anos. Não era coragem nem rendição; era uma tentativa de proteção, um escudo invisível para não enfrentar aquilo que eu não sabia nomear: a ausência de entendimento de quem eu era e do que precisava ser naquele momento.

Este ano, completei 50 anos. Uma marca que traz consigo uma reflexão inevitável: já vivi mais do que provavelmente me resta. E, com essa consciência, veio o desejo urgente de viver algo arrebatador, de preencher cada espaço vazio, como se a felicidade tivesse prazo de validade. Mas agora percebo que essa urgência não é um chamado da alma, mas sim do ego. O ego tem pressa. Ele sussurra que precisamos ter tudo agora, que o tempo está a escapar-nos por entre os dedos.

Mas a verdade é que nada floresce sem o seu tempo. Nem projetos profissionais, nem grandes amores. Estou a aprender que a vida não responde à força, mas ao ritmo. É uma dança onde não somos
nós que escolhemos a música, mas podemos aprender a escutá-la e a mover-nos com ela.

Neste ano, vivi muitas mortes. Não físicas, mas emocionais, psicológicas e espirituais. Mortes de versões de mim mesma que já não servem. De crenças que carreguei por anos, pensando que eram verdades absolutas. De medos que me faziam encolher, fingir estar morta para evitar a dor. Cada uma dessas mortes foi uma despedida dolorosa, mas necessária.

Hoje percebo que o renascimento só acontece quando aceitamos morrer para o que já não nos define. E, nesse processo, surgiu um novo entendimento: para viver plenamente, preciso acolher todas as partes de mim. Não apenas a que parece forte ou a que sorri, mas também as partes frágeis, assustadas, imperfeitas. São cinco as partes de mim: a criança que ainda precisa de cuidado e validação; a jovem que sonha e se atreve; a adulta que carrega responsabilidades; a sábia que está a emergir; e a sombra que sempre me desafia.

Acolher todas elas com humildade e amor é o caminho para a paz. Só quando aceito cada pedaço de quem sou posso também oferecer algo verdadeiro a quem cruza o meu caminho. É isso que quero levar ao mundo: a coragem de morrer para renascer. A certeza de que o tempo de viver, de amar, de realizar, não é algo que podemos forçar. É algo que acontece quando estamos prontos para receber.

E, nesse intervalo entre morte e renascimento, há uma lição de compaixão. Aprender a ser compassiva comigo mesma, reconhecer as feridas que ainda precisam de cuidado, e confiar que o que é meu encontrará o seu caminho até mim no tempo certo. Nem antes, nem depois.

Agora, enquanto escrevo, percebo que a vida não é sobre controlar o tempo, mas sobre nos entregarmos ao momento. Este é o meu renascimento, e é apenas o começo...

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