Celebrar a vida de verdade


 Há dias que guardam no silêncio algo tão simples quanto extraordinário. Ontem, foi um desses dias: o aniversário da minha sobrinha Benedita. Uma celebração pequena em tamanho, mas imensa na alma — onde o tempo pareceu abrandar para dar lugar ao riso, aos afetos e ao amor que nos sustenta.

No meio do bolo e das velas, das mãos que corriam a apanhar migalhas e dos olhos atentos a cada movimento da Benedita, a vida manifestou-se com a sua essência mais pura: estar, simplesmente estar.

E então, veio a brincadeira do meu cunhado, um mestre da descontração e das piadas certeiras. Entre copos e vinhos, entre rosés e tintos, escapei-me num erro pequeno: disse “preto” em vez de “tinto”, e ele, afiado, foi buscar não um vinho, mas um chouriço. Riram-se todos, e ele, mais tarde, tirando o chouriço do frigorífico, disse: "Guida, olha aqui o teu namorado!"

Por um instante, a sala parou. As palavras tinham um sabor agridoce, misturavam a leveza da piada com o peso de memórias que ainda ondulam no peito. Mas eu, hoje inteira, firme e sábia, respondi: "Isso está mais que morto."

Matei a conversa, é verdade. Mas no fundo, o que ficou vivo foi o momento — uma metáfora de como a vida, com a sua simplicidade quase infantil, nos ensina a rir de nós mesmos. É como se, entre o vinho e o chouriço, estivesse a dança da vida: uma mistura de falhas, amores perdidos e afetos que permanecem.

Benedita, no seu primeiro ano, foi o símbolo dessa beleza. A vida renova-se sempre que o riso irrompe no meio das cicatrizes. E é isso que quero guardar: a alma leve, o coração aberto e a capacidade de acolher até as “palhaçadas” que, no fundo, são só mais um jeito da vida dizer: Estás viva.

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