O Muro e a Marreta

 O Muro e a Marreta


Há tempos alguns anos atrás bem lá a atrás ergui um muro, pedra sobre pedra, uma fortaleza fria que me protegia do mundo. 

Cada tijolo carregava o peso das minhas dores: o medo disfarçado de segurança, a rejeição mascarada de prudência, e o abandono vestido de autoproteção. Por detrás dele, eu acreditava estar a salvo. Mas a alma, sábia e insubmissa, gritava: "Estás a construir uma prisão."

Hoje, ouvi esse grito. Peguei numa marreta, pesada como as mágoas que carreguei, e tremi. As mãos tremulas, mas a alma insistiu: "Tu consegues. Confia."

Com o primeiro golpe, o eco ressoou no silêncio. Era o som de uma barreira a ceder. A cada martelada, as pedras que antes me oprimiam começaram a cair. Uma fenda abriu-se, e por ela entrou o vento – fresco, libertador.

O vento trouxe memórias, emoções esquecidas, o perfume da vida que deixei do outro lado. Trouxe-me a certeza de que aquele muro não era abrigo, mas jaula. A falsa proteção em volta de mim apenas bloqueava a luz, o calor e o amor que sempre me pertenceram.

A alma, exultante, sussurrou: "Vês? Cada golpe teu é uma vitória. Estás a quebrar o que te impedia de ser inteira."

E eu continuei. Entre o cansaço e o alívio, senti uma nova força. A liberdade não chegou de repente, mas como um rio que começa a correr após o degelo. A cada pedra caída, a minha essência respirava. E quando a última barreira se desfez, lá estava eu – de pé, vulnerável, mas viva.

Agora sei: o que sempre procurei não estava do outro lado do muro, mas dentro de mim. A resiliência, a coragem e o amor-próprio nunca se foram; apenas esperavam o momento certo para emergir.

Deixo as pedras no chão guardo a lembrança: a vida flui quando confiamos. O muro pode ter sido um refúgio temporário, mas o verdadeiro abrigo está em quem somos. E eu? Eu sou liberdade em construção.

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