O Silêncio que Abraça
Hoje o dia começou mais tarde. Uma quebra na rotina, uma dança diferente com o tempo. Sem pressa, sem culpa. O relógio pareceu sussurrar: ainda vais a tempo, há tantas horas num dia. Talvez porque a casa estava mais vazia, sem a gargalhada e a presença da minha filha, que partiu para o fim de semana com o pai.
Encontrei-me no silêncio. Não aquele silêncio vazio, mas o que acolhe, que envolve, como se fosse um abraço da vida a dizer: aqui estás, inteira. Limpei a cozinha, mas não só. Limpei também um pouco da poeira que se acumula na alma, nos cantos esquecidos de mim mesma.
Sem música, sem televisão, só eu e o pulsar do meu coração. E lá estava ele, o ego, esse companheiro tantas vezes incompreendido. Hoje sentei-me com ele, olhei-o de frente e disse: não precisamos de correr, nem de procurar urgências lá fora. O que buscas já está aqui, em nós.
Acolhi-o como se acolhe uma criança que chora, que só precisa de ser vista, ouvida. Ele também faz parte de mim, e rejeitá-lo seria rejeitar pedaços da minha história.
Enviei mensagens a amigas, um fio de afeto a ligar as nossas vidas. E a ele, ao ..... V, um gesto simples, mas verdadeiro, porque a vida é isso: dar sem medir, sem invadir, respeitando os meus limites do outro.
Percebi que, nesse dar, não perco nada. Pelo contrário, ganho. Ganho a paz de saber que estou a viver alinhada com aquilo que sou, com aquilo que quero ser.
No fundo, o silêncio é um espelho. Mostra-nos quem somos, mas também quem podemos ser. E hoje, neste encontro comigo mesma, ouvi uma verdade que ressoa no coração: tudo está em mim. E tudo o que preciso é estar presente para o agora.
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