Química em vez alquimia



 Entre frascos e forjas

Um dia, num laboratório de ilusões, misturei-me com fórmulas instantâneas,
procurando o brilho fugaz da química que prometia o céu.
E lá estava ele, o reflexo do que queria,
mas apenas na superfície de um frasco volátil.
Era ação e reação, fogo de artifício breve,
uma explosão que encantava, mas que, ao dissipar-se,
deixava-me a sós com o eco de um vazio familiar.

Tentei transformar aquela chama em algo maior,
mas a química não sabe sustentar-se no tempo.
Ela exige consumo, desgasta-se e desaparece.
Eu, aluna da vida, quis aprender a alquimia,
mas o outro lado da equação não tinha mãos para forjar.

Alquimia não é impulso; é escolha.
É como o artesão que transforma metais em ouro,
esculpindo com paciência as arestas do coração.
É o encontro entre duas almas dispostas a despir-se,
não apenas dos medos, mas também das máscaras.
É caminhar lado a lado, ainda que às vezes em silêncio,
cultivando um jardim que floresce não pela urgência,
mas pela presença.

Hoje, olho para o que foi e compreendo:
não poderia haver alquimia onde só havia química.
A sua partida foi o selo do destino,
um lembrete de que a transformação requer entrega,
e não só faíscas momentâneas.

E assim, saí do laboratório e entrei na forja.
Aprendi que o verdadeiro ouro não reluz à primeira vista;
ele cresce, em camadas, ao calor do respeito,
da paciência, e do desejo de criar algo eterno.

A química queimou-me, mas a alquimia curou-me.
Hoje, não procuro reações rápidas.
Busco o fogo lento que transforma,
o olhar que vê além da embalagem,
e a conexão que transcende o tempo.

Porque, afinal, não sou feita de fórmulas efêmeras.
Sou a artesã do meu próprio ouro.

Margarida palavra da alma

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