A chuva cai lá fora, serena e ininterrupta, como se o céu se permitisse chorar por tudo aquilo que foi e não foi. Há um peso no ar que nos chama à introspeção, ao encontro com as nossas partes mais profundas. Hoje, o universo parece desenhar uma metáfora viva: tudo flui quando deixamos de construir barreiras para segurar o que não nos pertence.
A vida é como um rio. Quando tentamos represá-lo, tornamo-nos castores laboriosos, acumulando memórias, dores e resistências. Mas a água limpa, aquela que nutre e renova, nunca chega. Fica apenas o charco, turvo e imóvel, recheado de coisas que já não servem para nada. É a natureza a lembrar-nos que segurar é resistir, e resistir é negar a abundância que está sempre disponível para quem sabe soltar.
Nas cinco partes de mim, vejo o reflexo desta verdade. A menina que um dia acreditou que tudo devia ser perfeito para receber amor; a adolescente que se rebelou contra o mundo para ser vista; a adulta que tentou carregar o peso das expectativas alheias; a anciã, sábia e compassiva, que hoje me ensina a soltar o que não é meu, e finalmente, o coração inteiro que as reúne e me diz: "Ama-te em primeiro lugar, porque o amor que tens para dar só pode nascer do amor que nutres por ti."
Hoje, respiro fundo e lembro-me das leis do universo, aquelas que não precisam de ser escritas para serem sentidas. Quanto mais seguramos, mais o universo entende que estamos em resistência. Quanto mais resistimos, mais nos afastamos daquilo que verdadeiramente desejamos. É uma dança delicada entre o apego e a liberdade, entre o controle e a entrega.
No fluxo do amor, tal como num rio, há momentos em que as margens parecem afastar-se, criando uma distância que pode doer, mas que, na verdade, é necessária para que as águas se acalmem. Recentemente, tenho aprendido que o verdadeiro amor não é um turbilhão que nos arrasta, mas uma corrente serena que nos guia de forma segura. Há um nome que me vem ao coração quando penso nisto, um nome que me lembra a importância de respeitar os ciclos e os tempos de cada um. Não é na pressa que o amor floresce, mas na paciência de construir algo sólido, verdadeiro e alinhado com o que somos.
Penso nos desafios que a vida traz, como aquele amigo que perdeu momentaneamente a mobilidade do seu carro. Calcei os sapatos dele num instante, senti a frustração e a impotência que já conheci antes. Recordei-me de quando a vida me parou, me roubou o movimento ou me trouxe acidentes inesperados. Mas também me lembrei que, no meio do caos, há sempre uma lição a sussurrar-nos: "Deixa ir. Confia. O que é teu encontrará o caminho."
E assim, olho para o cinzento do dia, não como um presságio de tristeza, mas como um convite ao recolhimento. É no abraço das nuvens que nos permitimos acolher as nossas sombras e as nossas luzes. Hoje, aceito cada parte de mim com ternura, cada memória como uma professora, cada dificuldade como um trampolim para a leveza.
Solto. Permito. Acredito.
Que a água limpa continue a fluir, levando consigo o que já não serve, e trazendo apenas o que é puro, verdadeiro e alinhado com o meu coração. Porque sei que mereço amor, e esse amor começa sempre por mim.
Hoje, o universo está a cumprir a sua parte. E eu cumpro a minha.
Margarida palavras da alma
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