O Barco Encalhado



Há um rio dentro de mim, onde as correntes trazem sonhos antigos e dores que nunca cessaram verdadeiramente. Esse rio, tantas vezes calmo, carrega o peso do que fui, as margens do que sou e o eco do que ainda serei. Mas hoje, ao olhar para ele, percebo-o parado. Um barco encalhado repousa no meio do fluxo, as tábuas gastas pelas tempestades da vida, a tinta desbotada pelos dias em que me deixei levar pela corrente sem resistir. Não é um naufrágio, apenas uma pausa, um momento de escutar o que o vento traz em murmúrios esquecidos.

Hoje ouvi verdades que se cravaram em mim como trovões num céu silencioso, clareando o que antes preferia manter na sombra. Romantizei as tempestades que me molhavam o rosto, confundi o turbilhão das ondas com liberdade. Mas, no fundo, sabia. Sempre soube. Sabia que havia calmarias que negava, portos que evitava e verdades que escolhia não enxergar. E hoje, o rio falou-me através daqueles que me observam de fora. Disseram: "És mais do que mostras ser." E, ao ouvir, algo em mim assentiu. Sou mais, sim. Sou o vento que sopra nas velas, as marés que esperam o meu comando, a força que precisa restaurar o barco encalhado.

O ano que passou foi uma maré difícil, deixando marcas fundas, mas não irreparáveis. Foi um tempo de tempestades, de remendos apressados, de carregar uma tristeza que não nasceu agora, mas que se alimentou, em silêncio, do passado. Agora, 2025 surge como um farol à distância, um guia que me mostra onde devo fixar os olhos. É hora de desencalhar o barco, limpar o limo que cobriu os meus sonhos, restaurar as tábuas com as cores da minha essência e fortalecer o leme com a minha própria coragem.

Cada verdade que me foi dita hoje, por mais dura que pareça, é uma estrela a iluminar o meu caminho. Cada pessoa que cruza o meu rio é um farol, uma mão invisível a lembrar-me de que não estou sozinha nesta travessia. Mas, acima de tudo, sou grata a mim mesma, por continuar a remar, por acreditar que o rio sabe onde me levar. Não é o destino que sonhei, mas é, certamente, o destino que preciso.

Hoje, decido reerguer-me, abraçar as minhas falhas e aceitar que a tristeza é parte do que me moldou, mas não define quem sou. O barco está pronto para partir, o rio aguarda em silêncio, e eu, com a força renovada de quem se reconhece no espelho, volto a ser a capitã do meu próprio caminho.


 

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