Simples assim.
A vida traz-nos as pessoas certas, nos momentos certos, como peças de um puzzle divino que nem sempre compreendemos de imediato. Mas há uma sabedoria silenciosa no tempo, uma dança que nos guia, por mais voltas que a vida dê.
Durante anos, sentia-me sozinha no meu casamento. Era como se a conexão tivesse sido desfeita há muito, mas eu ainda permanecia, por amor à Inês, tão pequena e inocente. Foi preciso tempo para perceber que aquele ciclo já tinha terminado, mesmo antes de eu o aceitar. A verdade é que já me tinha descolado, mesmo sem saber. Mantinha as aparências, agarrada ao "dever", ao medo do que viria depois. Mas, no fundo, o amor por mim mesma começava a chamar-me, baixinho, com a voz de quem já sabe que o fim também pode ser um recomeço.
Aprendi que o primeiro passo é amar-me a mim. Não como um ato egoísta, mas como uma raiz que precisa de sustentar a árvore inteira. Quando me afasto, faço-o com respeito por mim mesma — porque reconheço que algo perdeu o brilho, a magia, ou o propósito. Respeito também o outro, mas é o meu coração que guia essa decisão.
E mesmo quando a admiração desvanece ou o encantamento se dissolve, sei que o amor permanece. Porque onde há respeito, ainda existe amor, mesmo que se transforme noutra coisa — talvez uma aceitação, uma despedida em paz, ou apenas um silêncio carregado de lições.
A vida, afinal, é feita de ciclos. Cada afastamento é uma nova muda. Descolo-me do que já não serve, do que me impede de florescer. Este processo não se aplica apenas aos relacionamentos, mas a tudo o que atravessa o nosso caminho — projetos, ideias, sonhos antigos.
Durante muito tempo, resisti. Mas percebi que resistir não é verdade, não é amor, não é luz. Cuidar do centro, do coração, é onde reside a força. Foi nele que encontrei as respostas, a coragem para recomeçar e, finalmente, para me sentir inteira.
Quando aprendemos a amar-nos em primeiro lugar, algo muda profundamente. Tornamo-nos inteiros. Deixamos de depender do reflexo que os outros nos devolvem e passamos a ver-nos na nossa própria luz. E nessa luz, somos livres.
Que cada afastamento seja um ato de amor. Por mim. Pelo outro. Pela vida.
Margarida palavras da alma
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