I've been set free O espelho da água


 "I've been set free, I've been set free

Sin has no hold, shame has no power over me"

O espelho da água

Hoje, mergulho para dentro. Para onde sempre deveria ter olhado. Mas olhar para dentro nem sempre é fácil. Às vezes, a água está turva, e a verdade, que um dia vem sempre ao de cima, assusta. Há dias em que sou um lago calmo, refletindo o céu, e noutros, sou mar revolto, onde as ondas se quebram contra rochas que nem sabia que existiam.

Os pensamentos repetem-se como ecos num vale sem fim, e sei que, quando algo insiste em retornar, não é apenas um murmúrio do vento – é um convite à cura. Não há fuga possível quando a alma chama. Aprendi a observar, a escutar, a não me confundir com aquilo que penso. Sei que, quando a mesma pergunta ressoa vezes sem conta, a resposta não está lá fora, mas sim num lugar mais fundo, num fundo que só se alcança com coragem.

A verdade tem um jeito peculiar de se revelar. Pode ser suave como a brisa da manhã ou abrupta como um trovão que rasga o céu sem aviso. Há momentos em que pensamos conhecer as pessoas, mas então, como um reflexo distorcido na água agitada, percebemos que talvez nunca as tenhamos visto como realmente são. E essa descoberta pode ser um choque, como o frio de uma corrente inesperada.

Mas a vida ensina. Ensina que não vale a pena bater contra a maré, que algumas verdades vêm à superfície para libertar, não para prender. E se algo me entristecia sem que eu soubesse porquê, agora sei. Sei que há histórias que se entrelaçam antes mesmo de termos consciência delas. Sei que há segredos que pesam mais do que o silêncio que os guarda.

Então, o que me resta? Cuidar de mim. Proteger a minha paz como quem protege uma chama num dia de vento. Descobrir o que ainda não vi. E, acima de tudo, continuar a viver. Porque estou aqui para isso. Para sentir o sol na pele depois da tempestade. Para permitir que a água, um dia, volte a ser clara.

Margarida palavras da alma

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