O Resgate da Minha Própria Luz
Passei uma vida inteira a caminhar sem saber que carregava nas mãos os cacos de uma autoestima que nunca chegou a existir. Não sabia que me diminuía. Não percebia que, ao encolher-me para caber nos espaços que me deram, deixava pedaços de mim pelo caminho. Cresci sem espelhos que refletissem amor, sem mãos que segurassem as minhas com ternura. Aprendi que o amor era distante, escasso, silencioso.
Mas hoje, olho para trás e vejo a menina que fui. A Margarida pequenina que conheceu um mundo de cores até aos três anos, mas que depois foi lançada num cenário de ausência, dureza e desconexão. Ela ficou ali, perdida no tempo, a perguntar-se se um dia alguém voltaria para buscá-la.
Hoje, sou eu que volto. Sou eu que entro naquelas memórias, que atravesso o nevoeiro do passado para lhe dizer aquilo que ninguém lhe disse:
As camadas de dor caem como folhas no outono, libertando o peso do que não é meu. Sinto no peito a mistura estranha de leveza e exaustão, como se o meu corpo estivesse a aprender a respirar de novo. A cada lágrima que cai, limpo um pouco mais do que ficou preso no tempo.
E percebo agora que autoestima não é algo que se perde, porque nunca a tive para perder. Mas posso construí-la, tijolo a tijolo, escolha a escolha. Começa com um olhar no espelho sem desviar os olhos. Com um “não” que nunca fui capaz de dizer. Com a coragem de reconhecer que mereço mais do que as sobras do afeto alheio.
Se te reconheces nestas palavras, se também te perdeste de ti mesma algures no caminho, convido-te a fazer este resgate. A encontrar a tua criança interior e a segurá-la com firmeza e amor. Ela não precisa de esperar mais. O que buscas fora está dentro. Sempre esteve.
— Margarida Baptista
Comentários