O Veredito da Alma

 


O Veredito da Alma

Há um momento em que a verdade se revela com a força de um trovão. Quando percebemos que não há salvador à espera na curva do caminho, que a única mão estendida é a nossa própria. Este entendimento é um paradoxo: ao mesmo tempo assustador e profundamente libertador. É um salto sem rede, onde o medo e a motivação se entrelaçam numa dança feroz. E é precisamente aí que me encontro — nesse limiar entre o vazio e a liberdade, onde todas as correntes se soltam e só resta o eco da própria voz.

Por muito tempo, uma crença silenciosa prendia-me, como raízes antigas que sufocam uma árvore jovem. Uma construção delicada e cruel do que deveria ser o amor, feita das sombras do que ouvi, do que vi e, acima de tudo, do que nunca recebi. Foi essa ausência surda, sem explicações para uma menina de apenas três anos, que plantou espinhos onde deveriam nascer flores. Hoje, percebo que essa crença não passava de uma prisão com grades invisíveis, que mantinham cativa a minha capacidade de amar livremente.

Demorei a encontrar as chaves. Não foi fácil, pois exigiu coragem para remexer em velhas gavetas, aquelas com fechos enferrujados e segredos embolorados. Abrir essas gavetas foi como revirar um sótão esquecido: cada memória, uma caixa pesada; cada dor, um artefacto a ser limpo com cuidado. E no meio desse caos, declarei em alta voz — não para suscitar pena, mas como um veredito da alma: só eu posso ser a minha salvadora, a minha provedora, a guardiã de mim mesma.

Há sonhos que ainda esperam, cintilando ao longe, como faróis a chamar navios perdidos. E são eles que comandam a vida, que inflamam a coragem, a ousadia e a resiliência. Ainda há tanto para colocar no lugar — um lema sussurrado ao coração: nada quebrado, nada fora do lugar, nada faltando. Mesmo que ainda haja peças dispersas, acredito na capacidade de as reunir, uma a uma, com paciência e fé.

Nos últimos dias, o corpo, sábio em sua linguagem silenciosa, manifestou dores como gritos contidos. Não foi fácil lidar com esse peso entre o deixar ir de vez e o ser quem realmente sou. Acredito que essa dor é a despedida do passado que ainda ecoa nas células, um ajuste necessário para o que vem a seguir. Porque curar não é um ato súbito — é um processo lento, como a passagem das estações, onde o inverno abre caminho à primavera.

Nesta travessia, inscrevi-me no ginásio, como quem planta uma nova semente. Movimento é vida, e cada passo é um voto de confiança no futuro. A Quaresma chegou, e a energia parece mais densa, como se o mundo respirasse devagar. Mas sei que pensamentos alinhados são escudos contra essa densidade, e que emoções luminosas podem brotar mesmo nos terrenos mais sombrios.

O melhor está para vir, sinto-o. Esta cura, tanto emocional como espiritual, é o renascimento depois da tempestade. E se, por um lado, ainda há cicatrizes a fechar, por outro, há asas a desabrochar. Porque, no final, percebo que a liberdade não é a ausência de dor, mas a capacidade de dizer "chega" — e recomeçar, com a alma leve e os olhos postos no horizonte.

Margarida palavras da alma

Comentários