Quando o "Vento" Leva Aquilo que Nunca Foi Meu

 

Quando o "Vento" Leva Aquilo que Nunca Foi Meu

Passei meses a desapegar-me. Primeiro das ilusões, depois das promessas, e por fim da necessidade de que algo ou alguém viesse resgatar-me de mim mesma. Sempre esperei pelo tal, o salvador, a peça que faltava no meu puzzle inacabado. Mas um dia, olhando bem para o tabuleiro da minha vida, percebi que as peças que faltavam não estavam do lado de fora.

O desapego não é sobre perder, mas sobre ver partir o que nunca foi nosso. É como o vento que arranca folhas secas de uma árvore—no início parece um roubo, um vazio, uma injustiça. Mas depois, quando a tempestade passa, percebo que só ficaram os galhos que ainda tinham vida. O essencial permanece.

Hoje, a vida deu-me mais uma pista. Na paragem do autocarro, distraída nos meus pensamentos, quase perdi a viagem. Mas o destino parecia decidido a esperar por mim—não perdi o autocarro, mas perdi algo pequeno: a lancheira. Como se a vida quisesse mostrar-me que, ao não estar atenta aos detalhes, o pequeno escapa. E se o pequeno escapa, que mais já deixei passar despercebido?

Por um instante, veio aquele impulso automático do ego: "Perdi, fui descuidada, devia ter prestado mais atenção." Mas logo depois, a minha essência soprou baixinho: "Será que perdeste mesmo? Ou será que aquilo que partiu encontrou um propósito maior do que aquele que teria contigo?"

Talvez alguém precisasse daquele almoço mais do que eu. Talvez o universo só tenha redistribuído algo que, afinal, não era meu para manter. O ego veste-se de urgência, fala a língua do medo e da escassez. Diz-me que, se não agarrar com força, tudo me será tirado. Mas a essência… Ah, a essência não grita. Ela ensina.

Hoje, ensinou-me que estar presente não é apenas sobre o grande caminho da vida, mas também sobre as pequenas pegadas que deixo pelo percurso. Que perder algo pequeno pode ser uma chamada de atenção para não perder o que realmente importa.

Aprendi a rir-me de mim mesma—dos tropeções internos, das crenças que desmoronam, dos dramas que criei e que, vistos de longe, mais parecem teatro mal ensaiado. Aceitação tem sido o meu exercício diário. E embora eu saiba que ainda há tanto a aprimorar, já entendi que não estou aqui para ser perfeita. Estou aqui para ser verdadeira. Primeiro comigo, depois com os outros.

Percebo agora que possuir algo não traz plenitude. A plenitude não se agarra—ela é como a primavera que chega sem que ninguém precise de a chamar. Está lá quando me permito, quando solto, quando confio.

E assim, cada dia, o vento leva um pouco mais do que nunca foi meu. E eu deixo ir.

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