A arte de receber sem me perder

 Há momentos em que a vida nos ensina pelas mãos dos outros.

Pelas suas ofertas generosas.
Pelos pratos cheios, os copos erguidos, as portas abertas.

Sempre fui aquela que, ao entrar na casa de alguém,
acolhia tudo o que me era dado.
Por respeito, por educação, por gratidão.
Porque cresci sem saber bem o que era amor,
e agora reconheço pequenos gestos como tesouros.

Na casa da minha mana e do meu cunhado,

fui recebida com carinho — vinho, petiscos, conversas.
Na casa da Cristina, em Castelo de Vide,
houve cogumelos, carne de javali, picanha —
abundância pura, ternura servida à mesa.

E eu aceitei.
Aceitei tudo, sem questionar.
Comi além da fome, além da escuta do corpo.
Não por gula, mas por lealdade.
Como se recusar fosse rude,
como se dizer “basta” fosse romper algo sagrado.

Mas hoje, como quem acorda de um feitiço subtil,
vejo com clareza:
receber tudo não é sinónimo de sabedoria.

Há uma metáfora que me visita agora:
um cálice.
O meu corpo é um cálice.
E cada gesto que recebo é como vinho derramado nele.
Mas se não souber o quanto cabe,
transbordo.
E o que deveria ser bênção, torna-se excesso.
O que deveria nutrir, começa a pesar.

Receber é sagrado.
Mas honrar os meus limites também o é.
É possível agradecer com um sorriso e escolher comer só um pouco.
É possível amar quem me oferece,
sem ter de me violentar para provar esse amor.

Hoje, compreendo que a generosidade dos outros é ouro.
Mas a minha própria consciência...
é o cofre onde esse ouro deve ser guardado com sabedoria.

Quero continuar a abrir os braços ao que me é dado.
Mas também quero aprender a pousar a mão sobre o meu ventre,
e perguntar-lhe:
"Está tudo bem aí dentro?"

O meu fígado agradece.
O meu coração também.


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🌸 Margarida – Sentences Soul
"To receive is sacred. But to honour myself while receiving is divine."
(Receber é sagrado. Mas honrar-me ao receber é divino.)


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