Ontem foi 8 de abril.
Fez um ano.
Um ano desde aquele momento em que tudo mudou —
não por fora, mas por dentro.
Um ano desde que o “nós” se desfez,
e eu tive de me reencontrar com o “eu”.
Dizem que o tempo cura.
Mas o tempo, sozinho, não faz milagres.
É o que fazemos com ele que transforma.
E eu... eu resisti.
Coloquei sentimentos debaixo do tapete como quem varre cinzas de um incêndio que ainda arde.
E o meu corpo… o meu corpo não aguentou mais.
Na madrugada de 8 de abril,
fui parar ao hospital.
Sozinha. Mas firme.
Com o estômago a revirar, o coração apertado,
e o fígado — sempre ele — a gritar aquilo que a alma teimava em calar.
A verdade é esta:
o corpo cede quando a alma já está a sufocar.
Cede para que olhemos de frente aquilo que fingimos não ver:
a raiva contida,
a culpa silenciosa,
o medo de falhar outra vez,
a dor de ter amado tanto… e ter sido deixada para trás.
Mas hoje, compreendo.
O corpo é mestre.
É mensageiro.
É altar onde se escreve a história que a mente tenta esquecer.
E o meu corpo disse-me:
“Margarida, já chega.”
Chega de resistir.
Chega de adiar a tua paz em nome do que passou.
Chega de guardar raiva como se fosse herança.
Ela só serve para adoecer.
Só serve para queimar por dentro… como lava de um vulcão que nunca encontra descanso.
Hoje, depois de 28 anos de vida em comum que ficaram para trás,
e depois de meses a reconstruir-me aos bocadinhos,
sei que há um amor que não posso mais adiar:
o amor por mim.
Não por ego,
não por vaidade,
mas por necessidade vital.
Porque se eu cair, nada mais floresce.
Porque se eu não me levantar, ninguém pode viver a minha vida por mim.
Então sim:
sou crescida, tenho “alguns anitos em cima”…
mas tenho sobretudo a coragem de me escolher.
De me limpar por dentro.
De me perdoar.
E de entender que o passado…
não revela mais nada.
Hoje, celebro o que ficou para trás não como perda,
mas como libertação.
Sou feita de cinco partes,
mas há uma que se ergue acima das outras:
a parte que renasce, mesmo quando tudo parece desabar.
Essa, ninguém me tira.
Margarida Palavras da alma

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