Nunca fui de lustros nem de lantejoulas

 


Nunca fui de lambebotismo.

Nem de engraxar vontades alheias, nem de andar à roda dos outros a dar lustro a egos sedentos de validação.

Não aprendi essa arte,
e, com toda a verdade do meu coração, também nunca quis aprender.
É por isso que, muitas vezes, me perco neste mundo —
um mundo onde o aplauso vale mais do que a integridade,
onde se premia quem agrada, não quem sabe.

Entendi, a duras penas, duas coisas:
o mundo pertence a quem sabe entreter, encantar, alinhar-se com o que se espera —
e não a quem tem sabedoria nas mãos e no peito.
E, mesmo assim, a sabedoria escolheu morar em mim.
Silenciosa, mas firme.
Discreta, mas inteira.

Nunca soube dizer o que os outros queriam ouvir.
Mas sempre soube dizer o que realmente importava.
E isso, por vezes, custa-me caro:
afastamentos, olhares torcidos, portas fechadas.
Mas nunca paguei o preço de trair a minha alma.
Esse, não estou disposta a pagar.

Vejo gente a dar lustro ao espelho dos outros,
sem coragem de encarar o seu.
Gente que brilha por fora e esvazia por dentro.
Mas aprendi cedo — isso é veneno.
Por isso nunca bebi desse copo.

Sou uma mestre disfarçada.
De tudo e de nada.
De ferida e de cura.
De silêncio e de revelação.

Sou caminho, mesmo quando tropeço.
Sou raiz, mesmo quando pareço voar.
E se me vês fora da roda, é porque a minha dança é outra.
É sagrada.
É minha.
E não precisa de lustro, só de verdade.

Hoje é Dia de Portugal.
Dia de Camões.
Mas para mim, mais do que datas e bandeiras, Portugal é alma.
Ser portuguesa é muito mais do que patriotismo —
é carregar no peito a coragem de um povo que não espera sentado.
É ter mar dentro dos olhos e saudade no peito.
É não ser só fado, mas ser verdade.
É ser casa para quem precisa,
mas sem perder quem somos.

Porque quem vem pedir ajuda tem de aceitar a nossa cultura,
o nosso jeito de ser,
o nosso coração que acolhe sem se apagar.

Ser portuguesa é continuar a sê-lo,
mesmo quando o mundo tenta moldar-nos.
É não gostar do morno.
É não saber fingir.
É ter alma — e não abdicar dela.

by Margarida Baptista

Comentários