A vida é agora
Durante muito tempo calei-me. Calei-me por medo de perder, por medo de magoar, por medo que nem sabia nomear.
Fui guardando dores, uma aqui, outra ali. Dores que se tornaram companheiras silenciosas.
Perdi o meu pai quando tinha 3 anos. Ele tinha 30. Três e três, com o zero no meio, como se fosse um portal entre mundos.
Perdi a minha mãe aos 11. Ambos morreram a caminho do hospital.
Lembro-me de pequena, o pânico que sentia sempre que ouvia o som de uma ambulância. O corpo reagia antes da mente. Desmaiava ou sentia o peito apertar, como se o coração fosse desistir.
Hoje sei que curei essa dor.
Mas não escrevo para falar do passado.
Escrevo porque preciso libertar tudo o que senti.
Sem medo. Sem pressa. Sem urgência.
Quero estar centrada no meu ser, alinhada com Deus, com a alma desperta e pronta para o que Ele deseja manifestar através de mim.
Sinto que estou aqui para cumprir um contrato cósmico, um propósito maior.
E para isso, preciso libertar-me da mania da perfeição, da comparação e da urgência.
Quero viver em descontração, em comunicação sincera comigo e com o mundo.
Quero ser luz.
Luz de dentro para fora.
Mesmo que a vaca tussa ou o sapo voe.
Durante muito tempo achei que havia algo de errado comigo.
A vergonha, o medo, a falta de merecimento, as dores da alma — o abandono, a humilhação, o abuso, a traição.
Dores que marcaram, mas também moldaram a mulher que sou.
Fui resiliente. Às vezes disciplinada, outras vezes espontânea demais, porque a liberdade sempre foi o meu ar.
Houve um momento em que percebi que já não podia continuar a fugir de mim.
Foi quando decidi olhar para dentro e aceitar o que doía, sem tentar disfarçar.
Descobri que a dor, quando escutada, transforma-se em sabedoria.
Que o medo, quando acolhido, abre espaço para a fé.
E que a cura começa quando paramos de lutar contra o que foi e escolhemos viver o agora, com tudo o que ele traz.
Não me perco na vitimização nem me queixo do que passou.
Aprendi que cada palavra é uma profecia sobre a vida.
Por isso escolho falar de amor, de fé, de coragem.
Quero ser, ter e fazer coisas positivas.
Quero estar alinhada com o que é luz, com o que é verdade, com o que é sagrado.
Mesmo que a vaca tussa.
Hoje sei que estar bem não é esquecer a dor, é transformar o que se foi em luz para o caminho.
E cada pessoa pode fazer o mesmo.
A vida começa quando deixamos o medo de lado e dizemos, com o coração inteiro: “A vida é agora."
palavras da alma Margarida Baptista
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