O dragão da terra e o músculo da alma
O trânsito estende se pela cidade como um dragão que respira fundo, serpenteia nas estradas e impõe o seu próprio ritmo. No fim, o trânsito é um só, feito de corpos apressados, pensamentos inquietos e vidas que tentam chegar a algum lugar.
Mas chegar a onde.
Todos os dias o mesmo cenário, uma espera que parece banal e que, sem darmos por isso, nos revela quem somos.
A espera é uma competência, porém poucos a sabem ler.
Há quem confunda paciência com essa espera sem direção, herdada como um padrão silencioso, quase geracional, uma ideia cristalizada que nos vem da consciência coletiva. Uma espera que não abre caminhos, apenas repete histórias.
A paciência é outra coisa.
A paciência aprende se na pele, nasce nas quedas e amadurece quando paramos de correr atrás do que nunca nos pertenceu.
As pessoas julgam que correm no trânsito, mas correm dentro delas, movidas pelo medo de perder algo que nem sequer é necessário.
A paciência é olhar de dentro para fora.
É aceitar que nada floresce ao ritmo da urgência.
É o músculo da alma, cresce quando escolhemos respirar, observar, sentir. Fortalece se quando deixamos de fugir e começamos finalmente a habitar quem somos.
Há quem veja no trânsito apenas caos.
Eu vejo um espelho.
Vejo o dragão da terra a ensinar me a desacelerar, vejo a vida a recordar me que não há chegada sem presença, não há caminho sem entrega, não há evolução sem tempo.
E talvez seja isto a verdadeira paciência.
Escolher estar.
Escolher ser.
Margarida Baptista
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