Quando o homem não ocupa o seu lugar e a mulher se cansa




 O que está a acontecer nas dinâmicas afetivas não é superficial, nem se explica apenas com a frase “cada um é como é”. Essa resposta, apesar de aparentemente tolerante, evita olhar para a raiz do fenómeno. Há hoje uma grande confusão porque existe um afastamento profundo da identidade interna, tanto no homem como na mulher.

Durante muito tempo, o feminino e o masculino foram compreendidos como forças complementares, não como opostas nem concorrentes. O masculino ligado à direção, à estrutura, à presença firme, à proteção e à responsabilidade. O feminino ligado ao acolhimento, à intuição, à criação, ao sentir e à ligação à vida. Quando estas forças estão alinhadas dentro de cada pessoa, os relacionamentos fluem com mais ordem e segurança.

O que vemos agora é uma rutura dessa ordem interna. Muitos homens cresceram sem referências sólidas de masculinidade madura. Pais ausentes emocionalmente, modelos masculinos fragilizados, medo de errar, medo de liderar, medo de assumir. Um homem que não ocupa o seu lugar interior tende a encolher-se, a esconder-se atrás da mãe ou da parceira, a delegar decisões, a evitar confronto e responsabilidade. Isto não é sensibilidade, é ausência de eixo.

Quando isso acontece, a mulher, por sobrevivência relacional, ocupa esse espaço. Decide, conduz, sustém, organiza, protege. Só que esse lugar não é o lugar natural do feminino. A mulher até consegue fazê-lo, mas paga um preço alto. Cansaço crónico, perda de desejo, ressentimento, sensação de solidão mesmo estando acompanhada. O corpo da mulher não foi desenhado para estar permanentemente em modo de comando e contenção.

Ao mesmo tempo, muitas mulheres foram educadas a desconfiar do masculino. Tornaram-se hiperindependentes como mecanismo de defesa. Não por força, mas por ferida. Isso gera um feminino endurecido, que confunde autonomia com fechamento e força com rigidez. Também aqui há perda de essência.

As modas, os discursos simplificados e os modelos extremos amplificam esta confusão. Não se trata da roupa, da estética ou da expressão individual em si. Trata-se do simbolismo inconsciente que essas imagens carregam. Quando os papéis internos estão trocados, o corpo fala, a imagem fala, o desejo fala. Nada disso é neutro.

Sobre a questão simbólica da marca masculina, aquilo que foi dito remete para algo arquetípico. Há uma memória profunda no corpo, uma matriz original que não se apaga com construções mentais. Pode-se alterar a forma, o nome, a aparência, mas a energia de base continua a procurar alinhamento. Quando há uma negação dessa matriz, surgem conflitos internos, ansiedade, fragmentação e dificuldade de vínculo profundo.

A desordem nos relacionamentos afetivos nasce exatamente aqui. Pessoas que não se conhecem por dentro, que não habitam o seu corpo com consciência, que seguem modelos externos sem escuta interna. Quando não há identidade, não há encontro verdadeiro. Há apenas tentativas, projeções e expectativas irrealistas.

A solução não está em voltar atrás nem em impor papéis rígidos. Está em restaurar a ordem interna. Um homem reconciliado com o seu masculino não domina nem se impõe, ele sustém e está presente. Uma mulher reconciliada com o seu feminino não se submete nem se anula, ela floresce e confia. Quando cada um ocupa o seu lugar interior, o relacionamento deixa de ser um campo de batalha e passa a ser um espaço de crescimento.

Sem esta ordem, não há intimidade segura, não há desejo vivo, não há paz relacional. E talvez seja por isso que tantos dizem “quero paz”, mas poucos sabem que essa paz começa dentro, no reencontro com quem se é, antes de qualquer papel social, moda ou discurso.

Margarida Baptista


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